top of page

Nem todo momento difícil precisa de psicoterapia — e isso também faz parte de uma boa avaliação

17 de set.
2 min de leitura

Ele foi demitido há três semanas.

Nos primeiros dias, organizou o currículo, atualizou o perfil profissional, enviou algumas candidaturas. Fez o que parecia razoável fazer.

Mas, à noite, algo diferente aparece. Uma dificuldade para dormir que não existia antes. Uma sensação de estar sendo julgado, mesmo sem ninguém dizendo nada. Um pensamento recorrente: "será que fiz algo errado para isso acontecer?"

Ele não sabe exatamente que tipo de ajuda precisa. Orientação profissional? Uma rede de contatos melhor estruturada? Ou existe algo mais — um desconforto que apareceu junto com a demissão, mas que talvez não tenha nascido dela?


Uma dúvida legítima

Essa dúvida não indica confusão. Indica uma percepção correta: a mesma situação pode ter mais de uma camada.

Para uma pessoa, uma demissão pode ser, sobretudo, um problema prático — mercado, rede de contatos, posicionamento. Para outra, pode reativar algo mais antigo: uma sensação de não ser suficiente, um medo de rejeição que já existia antes do emprego perdido. Para muitas, as duas coisas aparecem juntas, sem fronteira nítida entre elas.


Dois erros de simplificação

O primeiro é tratar tudo como questão psicológica. Nem todo sofrimento diante de uma dificuldade concreta precisa ser resolvido pela psicoterapia. Às vezes, o que falta é reorganizar uma estratégia profissional, buscar uma nova oportunidade, ou apenas ter tempo para decidir com mais calma. Transformar isso em "questão emocional a tratar" pode até afastar a pessoa da ajuda mais direta de que precisa.

O segundo erro é o oposto: tratar sofrimento psicológico como se bastasse uma solução prática. Dizer a alguém para "focar em enviar mais currículos", quando o que está em jogo é uma sensação profunda de fracasso pessoal, ignora o que de fato está acontecendo.


A pergunta que vem antes

Uma boa avaliação clínica não começa perguntando que tipo de ajuda buscar. Começa por algo mais simples e mais exigente: o que está acontecendo aqui?

É tentador pular essa etapa — encontrar logo a categoria certa, o profissional certo, a solução certa. Mas duas pessoas na mesma demissão podem viver experiências completamente diferentes: uma atravessa o período com desconforto esperado; outra descobre ali um padrão antigo que a situação apenas trouxe à superfície. Nenhuma dessas leituras invalida a outra.


Onde a psicoterapia entra

A psicoterapia pode ajudar a elaborar emocionalmente uma experiência difícil e a compreender padrões antigos que uma situação atual reativou — o que, de fato, diz respeito a um funcionamento interno, e não a uma circunstância que pede, principalmente, ação concreta.

Reconhecer os limites do que a psicoterapia deve fazer também faz parte de fazer bem esse trabalho.

Depois de mais de 15 anos atuando com pessoas e organizações, hoje como psicólogo clínico, uma coisa fica mais clara a cada caso: sofrimento psicológico raramente acontece separado das circunstâncias concretas da vida — mas também raramente se resume a elas.


Antes da próxima decisão

Talvez a pergunta mais útil não seja "que ajuda eu preciso", mas uma anterior a ela: o que, exatamente, está acontecendo comigo?

Quem consegue responder a isso com clareza já resolveu metade do problema. Quem não consegue, talvez precise, antes de qualquer solução, de alguém disposto a ajudar a formular a pergunta certa.



 
 
 

Comentários


bottom of page